domingo, 14 de maio de 2017

Valter Hugo Mãe e a imprudência poética



Publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, selo da CIA das Letras, Homens imprudentemente poéticos é um romance de Válter Hugo Mãe que data de 2016. Inspirado por um lugar que o autor conheceu em viagem ao Japão, o livro mergulha na cultura oriental para contar sua história.

Os personagens principais da narrativa são os vizinhos Itaro e Saburo. Itaro é um homem atormentado por premonições que lhe vêm da morte de outros seres. É um pintor de leques e vive na pobreza com sua irmã, Matsu, e a criada senhora Kame. Saburo é um oleiro, casado com a senhora Fuyu, por quem é muito apaixonado.

Uma tragédia provoca o início de uma inimizade entre os vizinhos, que permeia o livro, como um espécie de fio condutor. Essa história, porém, não se baseia apenas nessa trama, mas também na cega Matsu e sua bela percepção do mundo, do amor da Senhora Kame pelos que estão sob seus cuidados... 

Aos aldeões, o oleiro declarou: quero mostrar o amor, lamento que só vejam a morte. P. 86

Nas narrativas de seus personagens, o texto lança um olhar poético sobre a vida, permitindo diversas reflexões sobre os sentimentos e pensamentos que temos, sobre as diversas percepções da vida que existem, entre outros aspectos. Por isso, essa é uma leitura não apenas dos personagens e de sua história, mas de nós mesmos. 

A linguagem usada pelo autor não é rebuscada, mas é figurativa e poética, criando mais do que uma história de conteúdo, uma construção delicada de palavras, projetando belas imagens. As sentenças são curtas, tornando o texto ágil, e os diálogo não são apresentados com travessão, o que pode até gerar certo estranhamento no começo da leitura. 

Dizia rosto enclausurado para explicar que a cegueira era uma forma de prisão. Um modo de estar dentro. A menina Matsu estava dentro de si mesma. Nunca poderia ausentar-se da sua essencial clausura. P. 67

O estilo de escrita de Valter Hugo Mãe é muito semelhante ao do brasileiro Guimarães Rosa e do moçambicano Mia Couto, por brincar com os recursos da língua, criando poesia dentro da prosa. O conteúdo humano das obras dos três autores também fortalece essa "comparação". 

A edição brasileira foi feita com bastante capricho, com uma capa em rosa, azul e vermelho. A lateral das páginas é vermelha e o papel, ligeiramente amarelado. A fonte escolhida torna a leitura bastante confortável e há algumas ilustrações temáticas no começo do livro que são muito bonitas. O livro é, assim como o seu conteúdo, delicado e refinado em seu minimalismo. 

Homens imprudentemente poéticos é uma livro delicioso, cuja leitura flui rápida, mas que nem por isso é pobre de conteúdo (pelo contrário, é um livro carregado de reflexões e temas interessantes). O cuidado com a linguagem e a beleza criada nas histórias simples de seus personagens tornam esse livro inesquecível. 

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