quarta-feira, 24 de maio de 2017

Segundas intenções



Aquela era mais uma noite de trabalho. Carol colocou o avental branco sobre a calça jeans, ajeitou o cabelo num rabo de cavalo e seguiu para o balcão do restaurante, sem empolgação.

O Senhor Olavo, dono do estabelecimento, estava sentado atrás do caixa, contando diligentemente o dinheiro do caixa, como se da noite anterior até aquele momento alguma moedinha pudesse ter evaporado. Carol ignorou-o e organizou os cardápios.

Logo o primeiro cliente chegou para o jantar. A garçonete foi até a mesa e anotou o pedido: a especialidade da casa, lasanha. Enquanto escrevia, notou que o rapaz a observava, mas fingiu não perceber. Estava acostumada a lidar com esse tipo de coisa, de qualquer forma.

Depois de pedir ao cozinheiro que preparasse o prato do moço, voltou ao seu posto confortável atrás do balcão. Olavo foi até ela, lançando uma olhadela ao único cliente.

-Quem é? - Perguntou, como se fosse obrigação dela saber.

Carol deu de ombros.

-Descubra aquilo que for importante. - Olavo colocou as mãos em seus ombros e aproximou o rosto de seu pescoço para dizer isso num sussurro.

Com um calafrio, Carol respirou fundo e assentiu. Seria uma daquelas noites.

A campainha da cozinha avisou que o prato estava feito. Os braços da mulher tremiam enquanto depositava sobre a mesa a lasanha e os molhos.

-Está tudo bem…Carol? - O cliente leu seu crachá.

-Sim, senhor. Não se preocupe. - Declarou, colocando um sorriso amarelo no rosto.

Retirou-se, sentindo o sangue gelado. Não podia mais viver assim, não podia fazer aquilo de novo… Não valia se sujeitar àquele horror por tão pouco. Encolheu-se atrás do balcão, quase desaparecendo.
Um olhar pesado de Olavo caiu sobre ela. Sentiu a cor fugir de seus rosto diante dele. Não havia escolha. Pegou uma flanela e começou a limpar a mesa vizinha a do cliente.

-Você trabalha aqui há muito tempo? - Ele puxou assunto.

-Mais ou menos. - Retrucou e o olhar de Olavo sobre si fez com que encontrasse uma forma de 
emendar a conversa. - Nunca te vi por aqui.

-Não venho muito pra esse lado da cidade. Um amigo meu falou que aqui tinha uma lasanha deliciosa e decidi passar por aqui.

-Ah… Hum… E o senhor está gostando?

-Me chame de Davi, por favor. - Ele corrigiu. - Sim, está tudo uma delícia. Aliás, essa lasanha é de carne ou de porco? Não consegui identificar.

-Segredo do chefe. - Limitou-se a dizer. Não tinha certeza se conseguiria falar de amenidades por tanto tempo sem vomitar.

-Você tem certeza de que está bem? Está muito pálida…

-Estou bem sim. - Levantando o rosto, Carol encarou um impaciente Olavo. Estava com pressa. Queria saber. - Sabe… Depois do meu turno, você poderia me encontrar. Eu acho que isso me faria bem.

O rapaz pareceu um pouco constrangido, mas sorriu. Será que estava imaginando as segundas intenções daquele pedido? 

-Tudo bem.

-Meu turno termina à meia-noite. Você pode me esperar atrás do restaurante. 

-Combinado. - Ele ainda ostentava aquele sorriso. 

Assentindo com a cabeça, ela se afastou, com Olavo ainda vigiando. Não falou nada ao patrão, mas ele soube que conseguira. Ela tinha feito. Sempre acabava se rendendo, porque não havia muita escolha. 

Pouco depois, Davi se despediu. Precisava resolver alguma coisa antes de encontrá-la. Pagou a conta e foi embora. 

Quando ele saiu, a atendente se sentiu mais leve. Continuou cuidando das mesas, serviu mais alguns pratos e por algum tempo os afazeres afastaram seus pensamentos apreensivos do que aconteceria mais tarde. 

Às 23h55min, o restaurante já estava vazio. A mulher foi até o banheiro, retirou o avental, lavou o rosto, encarou-se no espelho. Estava ansiosa, e suas mãos não paravam. Escovou os cabelos, remexeu os brincos. Podia ser que ele nem viesse. Afinal, quem vinha se encontrar com uma pessoa que mal conhecia, no meio da noite? Era provável que Davi tivesse ido embora para nunca mais voltar, pensando que ela era alguma maluca.

No entanto, quando saiu para a rua, ele estava lá. Carol engoliu em seco. Ia acontecer. O rapaz se aproximou cumprimentando-a. 

-Ah… Você pode esperar um minuto? Esqueci uma coisa. - Estava tão nervosa que ele devia ter pensado ser algo muito importante. 

Não esperou resposta para voltar a passar pela porta. Ficou parada ali dentro, sentindo que o momento derradeiro daquela noite chegava junto com os passos de Olavo pela rua. Não queria ver, não podia. 

Deixou-se escorregar até o chão, onde se encolheu com as duas mãos sobre as pálpebras fechadas. Ainda podia ouvir e escutou a exclamação de surpresa e o baque de uma queda rápida, violenta. 
Depois, durante tortuosos instantes, houve o arrastar lento e cadenciado. A porta se abriu e o som continuou mais perto. Os passos, o arrastado. Os passos, o arrastar. Olavo, o morto. Até a cozinha. 

Perdeu-se no seu medo, escondida naquele cantinho escuro. Parecia não ter passado muito tempo quando ouviu a voz de Olavo. 

-Você está dispensada por hoje. - Encarou os olhos cheios de selvageria. - Vejo você amanhã. 

Com um aperto em seu braço, ele reforçava antigas ameaças que ela conhecia. Contar o que o sabia ou fugir eram impossibilidades. Ele a encontraria. 

Na noite seguinte, Carol colocou o avental, pensando que seria só mais uma noite comum. Os clientes esperavam e ela serviu uma fornada fresquinha de lasanhas vinda da cozinha. Não sorria, mas tentava esquecer o que acontecera. Era impossível. 

-Nossa, essa lasanha é mesmo deliciosa. E essa carne… 

***

Este conto foi o resultado de um pequeno desafio que surgiu numa aula de redação numa turma de primeiro ano do Ensino Médio. Eu propus aos meus alunos que criassem uma situação e alguns personagens sobre os quais deviam escrever em diferentes pontos de vista. Surgiu a situação do jantar com lasanha e os três personagens Carol, Olavo e Davi, cujas únicas características eram ser, respectivamente, a garçonete, o dono do restaurante e o cliente. 

Quando os alunos terminaram de escrever e compartilhar suas produções, fui desafiada a escrever minha versão, ou seja, escrever a minha história sobre essa situação e esses personagens. O resultado foi o o texto acima :) 

Um comentário:

Larissa Fonseca disse...

Genial, Nicole! Parágrafos que nos deixam tão presos à história quanto a garçonete está presa em sua própria situação. Engraçado que, quando o cliente indagou sobre o tipo da carne, nem desconfiei do rumo que o conto levaria; surpreendente, mesmo!

Abraços e uma boa noite para você!

As moscas na janela