segunda-feira, 1 de maio de 2017

[Mundo Morto] Capítulo 3 - Raízes


Mundo Morto é um romance. Leia os capítulos anteriores... 





Dois dias. Tinham se passado dois dias sem que Beatriz tivesse qualquer notícia ou contato humano. Os meios de comunicação não voltaram a funcionar e ela não vira qualquer sinal de resgate. Também não havia nenhum indício de que seus pais ou vizinhos estivessem por perto. 

A adolescente não tinha uma vasta experiência em catástrofes naturais, mas sabia que aquele silêncio não era normal. Àquela altura, alguma coisa já devia ter acontecido, alguém devia ter aparecido. 

Depois da visão do cadáver de dona Alma, não tivera coragem de sair de casa. Passou os dois dias tentando se ocupar e ter pensamentos positivos. A defesa civil, os bombeiros, alguém estava ajudando as pessoas que tinham sido prejudicadas e logo chegariam até ali para ajudá-la. Seus pais poderiam chegar a qualquer momento, aliviados por encontrarem-na sã e salva. 

Com essa visão otimista, Bea passou esse tempo recolhendo a bagunça causada pela tempestade, convencendo-se de que receberia um bom aumento de mesada por ser tão prestativa. Quando a noite chegava, porém, todos os seus pensamentos positivos eram contaminados pelas lembranças do que vivenciara nos últimos dias e pelo medo de que algo realmente muito ruim tivesse acontecido. Se conseguia dormir, exausta, tinha horríveis pesadelos com uma coruja monstruosa que não tinha olhos e que tinha fileiras de formigas saindo deles. 

Na manhã do terceiro dia após a tempestade, acordou dolorida e cansada depois de uma série desses pesadelos. Enquanto comia, decidiu que iria até o centro da cidade buscar informações. Não podia mais esperar parada que alguém aparecesse: tinha que entender a gravidade da situação. 

Assim que terminou de tomar o café da manhã, pegou a mochila e encheu-a com barrinhas de cereal e garrafas d'água para aguentar o dia. Também pegou uma lanterna e um canivete suíço que ficava na cozinha. Anos de filmes e seriados sobre o apocalipse haviam prevenido-a de que valia a pena estar preparada para tudo em catástrofes. 

Conferiu se Fuferson teria água e comida o suficiente e fez um carinho no gato adormecido antes de iniciar a jornada. Seria uma hora de caminhada até o centro da cidade e ela esperava encontrar alguém pelo caminho com quem pudesse conversar. 

Desviou os olhos do espaço na calçada onde devia estar dona Alma e encheu a rua com o som de seus tênis pelo calçamento de pedra. Havia pedaços de árvores e telhas espalhadas por tudo, então caminhou devagar, observando os obstáculos e vasculhando as casas na esperança de ver alguém. 

Havia cheiros estranhos no ar, como terra seca e infértil. Com a falta de movimentação na rua, esse pensamento fez com que tivesse um calafrio e ela começou a cantarolar para ignorar esses devaneios. 

Por fim, percebeu que se aproximava do seu destino, quando vislumbrou a torre da igreja. Não encontrara ninguém pelo caminho... Talvez um centro de refugiados tivesse sido organizado no ginásio da igreja ou houvesse um plantão na prefeitura, então teve certeza de que eram bons lugares para procurar ajuda. 

Conforme seguia até a rua principal, um cheiro de lodo e madeira apodrecida começou a invadir suas narinas, fazendo com que franzisse o nariz. Não tinha ideia de onde isso podia se originar, mas só podia ser do esgoto. 

Por fim, chegou ao cruzamento entre a avenida e a ruazinha que vinha seguindo e estacou diante da visão de um arranha-céu de raízes escuras que tinha surgido no meio da rua. A enorme massa de raízes retorcidas surgira de uma fenda no asfalto e se espalhara até a calçada, estendendo braços pelo asfalto e pelos prédios ao redor. 

Seus passos estavam incertos quando decidiu se aproximar, sem pensar demais nisso. A curiosidade que a movia também a alertava para parar, para sair correndo dali, mas Beatriz precisa ver o que era aquela coisa. 

A árvore bizarra era a fonte do cheiro desagradável que ela sentira e à medida que se aproximava, o aroma de putrefação de tornava mais forte, impregnando-a por completo. A coluna formada pelas raízes tinha o tamanho de um edifício grande e parecia uma coluna de trapo, enroscada em si mesma. 

Pensou na coruja que saíra da parece de sua casa e tremeu, pensando em como aquilo tudo parecia relacionado. O que estava acontecendo, afinal? Sua cabeça zumbia enquanto ela dava mais passos rumo ao desconhecido. 

Apenas ao chegar muito perto, percebeu que entre os ramos de madeira havia pontos coloridos, entranhados no interior do bolo que subia. Precisou focar muito bem um desses pontos para distinguir um formato e por fim descobrir o que eram aquelas coisas. Pedaços de roupas rasgadas, cabelos... Havia pessoas enleadas no meio das raízes. 

Os líquidos viscosos, entre um tom de negro e marrom avermelhado, não deixavam muito espaço para que ela pensasse positivamente. Os ângulos em que os ramos se torciam, prendendo braços, cabeças e pernas, eram impossíveis. 

Afastou-se alguns passos, presa no torpor daquela visão e sentindo um pânico maior do que quando avistara os olhos da coruja monstruosa. Sentiu-se cair para trás no asfalto. Não sentiu as mãos ralarem, ainda olhando para aquela aberração doentia e assustadora. 

Por fim, olhou para os lados, desesperada por encontrar qualquer sinal de que não estava sozinha. 

-Hey, tem alguém aí? - Gritou. - Alguém? 

Sem resposta, correu em direção à árvore. Alguma daquelas pessoas tinha que responder. Aquelas pessoas todas não podiam estar mortas. 

Pendurou-se entre algumas raízes e espiou por entre frestas. O miolo da estrutura não era compacto, mas construído de uma série de filamentos, como cipós. Entre eles, tripas, peles e órgãos estavam pendurados, junto com outras partes que ela não tentou identificar. Baratas, moscas e vermes dependuravam-se pelos ramos. 

Por um instante, não conseguiu desviar os olhos daquele retrato de horror. Era surreal demais para ser real. Tinha que ser outro pesadelo. Sentindo um pânico imenso invadi-la novamente, tentou descer, afobada, e enfiou as mãos e os pés às cegas pelas fendas. Esfolou-se no meio do processo e quando chegou ao cão estava coberta pelos fluídos escuros e fedorentos que corriam da árvore. 

Com os pés no chão, mal percebeu a imundice em que estava. Saiu correndo. Não importava mais se havia alguém por ali. Não podia mais ficar perto daquela coisa nem mais um instante. 

Disparou pelas ruazinhas, afastando-se em uma corrida desesperada, até tropeçar num galho e rolar duas vezes no chão. Sentiu as lágrimas rompendo a garganta e ganhando espaço enquanto se levantava, seu sangue misturado ao da árvore, enquanto voltava a sua corrida desesperada para lugar nenhum. 

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