quarta-feira, 5 de abril de 2017

O Estranho da Rua

Fonte da imagem: DeviantArt

Aconteceu no ano passado. Chuviscava, eu estava com o guarda chuva. Saí do trabalho e fui até a farmácia. Lá, flagrei que alguém me observava, mas não dei atenção. Fechei a cara, comprei o que precisava e segui meu caminho, rumo à academia.

Percebi que alguém seguia atrás de mim na calçada. Fiquei atenta, pois não havia muita gente na rua àquela hora da tarde.

Em um momento, após uma esquina, o sujeito me interpelou: "Com licença moça, você tem namorado?". A pergunta, vinda assim, de um estranho e no meio da rua, me deixou confusa e meio sem reação, então respondi automaticamente "Sim, eu sou casada". "Ah... Bem, você é muito bonita", ele respondeu. Ainda sem reação, agradeci e me concentrei em caminhar.

Minhas pernas começaram a ganhar velocidade, caminhando quase correndo, na incerteza do que fazer. Meu pulso acelerou, meu instinto me mandava ir mais rápido, chegar logo a um local onde eu poderia me ver à salvo. Fiquei tensa.

O rapaz continuava atrás de mim e ao perceber a minha reação, disse algo como"Moça, não estou te seguindo, tah? Só moro por aqui".  Não fiquei mais tranquila.

Quando cheguei à academia, ele me desejou uma boa tarde e devo ter balbuciado uma resposta. O incômodo da situação foi passando. Aquele acontecimento foi bem estranho e fiquei pensando a respeito mais tarde, e me sentindo até meio boba. 

Como pessoa que sempre caminhou muito, eu já ouvi muitas coisas nojentas e bizarras de homens na rua, desde o começo da adolescência (e não sou exceção). Mas esse sujeito que me interpelou na rua foi educado, cortês. Nem mesmo se aproximou. Não me propôs nada, não encostou em mim, não foi desrespeitoso. Mas eu tive medo dele. Tive medo de que ele me puxasse pelo braço, de que eu não pudesse fugir e de que ninguém fosse me ajudar. 

Sinto muito, Estranho da Rua, que as coisas tenham que ser assim. Não é nada pessoal. Eu gostaria que todos os homens fossem educados como você foi, que fizessem um elogio polido e que não insistissem quando alguém diz que já tem um relacionamento, não está interessada ou que não insista em conversar se a outra pessoa não está a fim. Mas não são. Nós sabemos disso. Ouvimos relatos de amigas ou conhecidas, lemos notícias e assistimos a vídeos sobre como muitas vezes coisas ruins acontecem porque tem gente que não sabe ouvir um "não" ou acha que está agradando sendo estúpido. E é por isso que, mesmo que não haja nenhum indício de que há más intenções, a gente tem medo. Medo de ser mulher e andar na rua, em plena tarde, porque não sabe o que pode acontecer se um estranho ficar muito tempo olhando pro nosso lado ou nos dirigir a palavra. 

***

N/A.: A inspiração para escrever essa crônica surgiu pouco depois de eu assistir ao filme As sufragistas. Não tenho o hábito de escrever crônicas, então agradeceria muito se você, leitor, comentasse o que achou. ;) Quem sabe eu me inspire a escrever outras crônicas, sobre outros temas?! Se você quiser, pode sugerir algum. Obrigada por ler! 

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