domingo, 19 de fevereiro de 2017

[Mundo morto] Capítulo 2 - Mundo morto



CAPÍTULO 2 - MUNDO MORTO

Bea abriu os olhos e piscou algumas vezes até se situar. Estava espremida embaixo da escrivaninha do quarto. Fora ali que se escondera durante a tempestade, com Fuferson apertado debaixo do braço.

Arrastou-se para fora da toca, sentindo o silêncio que dominava a casa. Era como se a tempestade e tudo o que acontecera na noite anterior fosse um pesadelo, fruto de sua imaginação.

Seguindo pelo corredor, sentia um nó de receios em sua garganta. Quando chegou à sala, o enorme buraco no teto confirmou a realidade dos acontecimentos, junto com o rombo na parede, do qual ainda se penduravam algumas raízes secas.

Respirando fundo, Beatriz contornou os restos que se acumulavam pelo chão e pegou o controle da televisão. O aparelho não ligava, então era óbvio que a energia elétrica ainda não tinha voltado. Lembrou-se dos pais e correu até a garagem. Vazia. Provavelmente o temporal os obrigara a procurar abrigo e esperar, mas eles deviam ter ligado ou mandado alguma mensagem para ela.

Voltou para sala e vasculhou a bagunça até encontrar o celular. Nenhum registro de contato dos pais. A operadora estava sem sinal e a internet também não funcionava. Largou o aparelho inútil sobre o sofá.

Sentou-se no braço da poltrona, sem saber ao certo o que fazer. Raciocinou que o mais lógico seria procurar informações sobre o que tinha acontecido pela vizinhança. Alguém devia ter alguma notícia.

Porém, não estava preparada para o cenário de devastação que a aguardava fora de casa. Até onde iam seus conhecimentos sobre geografia, não aconteciam furacões no Brasil, mas não conseguia pensar em outra explicação para o que via. Árvores estavam reviradas, com as copas no chão e as raízes para o céu, várias casas estavam sem telhado e havia muito lixo na rua. Era como se um ancinho gigante tivesse revirado tudo ao seu redor. Sua própria casa parecia ser a única inteira e ela se perguntou se a coruja de raízes tinha algo a ver com isso.

Espantando os pensamentos ruins, Bea saiu para a rua, passando pelo portãozinho da frente. Tinha certeza de que as pessoas estariam procurando ajuda, haveria alguém. Mas assim que deu os primeiros passos, avistou alguém no chão. Correu até lá. Pelas roupas cor de chá, devia ser Dona Alma, que morava na casa em frente. Manchas vermelhas indicavam sangue.

Abaixou-se, ficando de joelhos, e virou a senhora, esperando que ela estivesse consciente. Antes de encarar o rosto, ela já sabia a resposta, mas a descoberta não foi menos terrível por isso. A face não estava apenas sem vida, mas cheio de formigas, que brotavam das cavidades onde antes havia olhos gentis.

Empurrando o cadáver para longe de si, Bea cambaleou e equilibrou-se apoiando as duas mãos no asfalto. Vomitou bile amarela e azeda por alguns instantes e se sentiu babar, como se estivesse sedada.

Depois de um minuto, limpou a boca com o dorso da mão e se levantou, tropeçando um pouco. Girando o corpo, tudo o que podia ver eram destroços.

-Alguém? Tem alguém aí? – o grito rasgou sua garganta e permaneceu sem resposta.

Seus olhos buscaram sua casa, como se fosse possível ela ter se desfeito nos breves instantes em que ela ficara fora. Como se fugisse de um fantasma, Bea correu para dentro do pátio, fechando o portão com pressa.

Assim que se viu na sala, avistou o pote de comida do gato. Sentiu um calafrio de pânico ao lembrar que ainda não o tinha visto pela manhã. Correu para os quartos, revirando cantos até ouvir um miado. Voltou para a cozinha e encontrou o bichano tranquilo sobre o micro-ondas.

Beatriz olhos nos olhos verdes e vivos do bicho e o pegou no colo. Sentou-se no chão de azulejos, aninhando-o ao peito, deixando lágrimas silenciosas rolarem por seu rosto. No mundo morto, parecia que só ela e o gato ainda respiravam.

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