quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

[Mundo morto] Capítulo 1 - A coruja

Olá, minha gente. 

Hoje começarei a postar por aqui os capítulos de um romance que tenho desenvolvido para o Wattpad. Como nem sempre atualizo minha conta naquela plataforma, e nem todos acessam meus textos por lá, decidi postar essa história por aqui também. Além disso, eu acho muito mais prático postar no blog... Então é provável que, de agora em diante, eu poste aqui, antes de postar lá. 

Hoje deixo para vocês a sinopse e o primeiro capítulo. ;) 




Sinopse: Tecnologia avançando em ritmo acelerado, recursos do planeta próximos do esgotamento. O mundo todo está girando num fervo de industrialismo e progresso, que parece perfeito para a humanidade. 
Porém, esse progresso encontrará uma força poderosa, contra a qual não poderá lutar. 

Estranhos fenômenos sobrenaturais começam a acontecer pelo mundo. Árvores, animas e elementos da natureza parecem ter ganhado um propósito único: destruir a raça humana.  Não há recurso para lutar contra esses antigos poderes do mundo e enquanto a morte se espalha pelo planeta, a humanidade precisa encarar a destruição de sua criação e a chegada de uma nova era, na qual não lhe cabe mais o domínio do planeta.


CAPÍTULO 1 - A CORUJA


Sob a luz amarelada e bruxuleante das velas, era difícil se concentrar nos exercícios de química que precisava terminar. As chamas chacoalhavam com o vento, fazendo a iluminação dourada dançar pelo papel, sombreando as ordens das tarefas e as respostas em uma letra corrida e pouco elegante.

Beatriz suspirou, batendo com a parte de trás do lápis no caderno. Tinha que terminar aquela lista de questões para entregar na manhã seguinte, mas se sua vontade de estudar exatas já era pouca quando tinha energia elétrica, tinha se evaporado completamente naquela condição.

"Viu só? Você fica deixando as coisas para última hora, e é isso que acontece...", podia ouvir a voz de sua mãe, quase como se ela estivesse ali para repreendê-la. E por mais que odiasse admitir, a mãe estava certa. Sempre acabava atrapalhada com os trabalhos de escola.

Deu um pulo quando Fuferson saltou sobre a mesinha de centro, as pupilas dilatadas, dando um bote no lápis que ela ainda remexia. Soltou o instrumento, deixando o gato matá-lo com a ferocidade de um leão, enquanto observava.

Decidiu que não adiantava tentar estudar naquelas condições, especialmente quando um trovão alto fez a casa toda tremer. A tempestade passaria, a luz voltaria e então ela poderia terminar o trabalho.

Sua decisão fez com que se sentisse entediada. A internet não estava funcionando, porque o temporal era aparentemente feio e devia ter comprometido todas as fiações do bairro. Sem luz e com Fuferson como sua única companhia, ela não tinha muito com o que passar o tempo.

Pegou algumas revistas que estavam no balcão da cozinha, junto com um pacote de salgadinhos. Começou a comer enquanto analisava as reportagens com leve interesse.

Depois de alguns minutos, terminou com os petiscos e levantou-se para colocar a embalagem no lixo. Sentia-se inquieta, por alguma razão. Talvez fosse a tempestade, que começara há mais de uma hora e ainda estava feia, ou a demora dos pais. Será que estava tudo bem?

Descartou o plástico e ouviu um assoviar alto na rua. Abriu as cortinas, observando o vento carregar folhas com uma velocidade alucinante. Com um "crack" alto, a figueira do vizinho foi aspirada do chão e cuspida de volta, as grossas raízes desnudas da terra.

A visão era hipnoticamente fascinante, mas ao mesmo tempo aterrorizante. Em seus 16 anos, Beatriz nunca vira nada assim acontecer. Percebeu que colocara as duas mãos em frente à boca, tentando cobrir a própria expressão de susto diante da força da natureza.

Viu as telhas de barro do vizinho choverem sobre o muro que dividia o terreno e ouviu o telhado da própria casa lutando contra o vento que pretendia depená-lo. Os rangidos aumentaram, até que ela percebesse que parte do próprio telhado fora sugado pela força incontrolável.

Com um grito de susto pela percepção, foi até a sala e abraçou-se a Fuferson, tentando encontrar um lugar no qual pudesse se esconder até o pior passar. Tudo na casa rangia e chiava, como se de repente a madeira sólida não fosse mais que uma maquete de papel.

Na parede da sala, no entanto, o som começou a se tornar ensurdecedor. Algo arranhava o material por dentro, como a garra de um tigre. Bea sabia que alguns morcegos viviam ali, mas duvidava que pudessem fazer tanto barulho. No entanto, eles logo começaram a soltar guinchos de pavor e isso fez com que ela temesse o que mais podia haver oculto ali.

De repente, um pequeno buraco explodiu na parede, seguido por algo muito semelhante a um braço, que se estendeu para fora da parede, crescendo e se enraizando.

Ela sabia que devia correr, se esconder em algum lugar, mas ainda assim ficou com os pés plantados no tapete. Outros buracos como o primeiro foram surgindo, rasgando a parede e revelando aqueles tentáculos escuros. Logo eles se tornaram incontáveis e cresceram até o foro, destroçando-o como se não fosse nada.

Era como se uma bomba tivesse explodido, destruindo a parte superior da parede e teto. Logo Bea se sentiu molhar pela chuva, mas ainda estava paralisada. Seu coração parecia amarrado a uma bigorna.

Uma horda de morcegos em guinchos enlouquecidos deixou a nova abertura da casa, mas ela podia ver que havia outra coisa ali dentro. Com mais estalos e ruídos, novos daqueles fios foram surgindo. Vendo-os agora, pensou que pareciam raízes ou mesmo caules de trepadeiras crescendo anormalmente rápido. Só que aquelas braças não podiam pertencer a uma planta, era ilógico.

A realidade, porém, se mostrou bem mais bizarra e assustadora do que isso. O resto da parede se estraçalhou, conforme as linhas escuras foram se agrupando, ganhando corpo.

Em poucos minutos, havia tantas delas que Beatriz pensou estar contemplando a escuridão completa. No entanto, elas ganharam forma e duas enormes asas se abriram, como se fossem abraçá-la, sufocá-la. No meio da envergadura, um corpo grande sustentava dois olhos de uma tonalidade que ela jamais vira, mas que devia ser a cor do inferno.

Um relâmpago forte iluminou todos os contornos da criatura bisonha, enquanto soltava um grito agudo, que preencheu o ar em sintonia com um trovão. Uma ave. Enfim ela pôde identificar. A coisa era uma ave gigantesca, uma coruja.

Enquanto trocavam olhares, Bea sentiu lágrimas correndo pelo seu rosto, junto com a chuva. Estava com medo e não havia razão para negar isso. Aquele animal medonho inalava morte e destruição. No entanto, depois de um curto segundo de olhares trocados, a coruja remexeu suas asas, soltando as raízes que a prendiam ao chão e ao que restava da parede. Como um demônio que levanta do inferno, ela alçou voo na noite, gritando em coro com os trovões.

Bea despencou no chão, ainda mirando o buraco que até poucos minutos antes fora parte de sua casa. Que tipo de pesadelo era aquele? 



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