domingo, 4 de dezembro de 2016

Os sacos pretos


A janela era ampla, vidro nu. Tinha sido planejada para deixar a luz entrar, agora servia de barreira para que os fantasmas ficassem de fora do prédio. Em outra vida, aquele edifício abrigara uma estação rodoviária, mas agora, não havia mais ônibus no estacionamento concretado que podia ser visto pela janela.

Parada diante da abertura, queria desviar os olhos, mas não conseguia. Do lado de fora, o atestado da bestialidade era inegável, tomando contornos negros. 

Quem visse os montes de lona preta podia pensar que estavam cheios de lixo. Era isso o que a vida valia. Lixo. Ela vestia lixo agora. Uma camiseta roubada de um saco, uma jaqueta afanada em outro. Tênis que ela mesma puxara para fora, antes que o plástico cobrisse a origem de suas roupas. Ela lembrava do pé branco e gelado que eles calçavam e sentia vontade de vomitar. Não era melhor do que ninguém. 

Abraçou a si mesma, vendo pedaços de plástico balançarem um pouco em alguns pontos, onde o material rasgara. Parecia que dos furos podia surgir, a qualquer momento, uma mão de ossos negros buscando se agarrar a qualquer coisa na busca pela destruição. 

Da mesma forma, em outras partes da montanha de morte, pensava ver os contornos das cabeças. Era como se, debaixo do cobertor do inferno, as almas irrequietas se movessem, tramando voltar ao mundo e se agarrar aos pés dos sobreviventes.

Lembrou dos pés, lembrou de antes dos sacos. E sentiu um pânico sem explicação. Todos eles seriam punidos um dia. Mais cedo ou mais tarde, os fantasmas os alcançariam sem piedade. Escondidos embaixo dos sacos pretos, eles esperavam apenas uma oportunidade, ela sabia. Sob os sacos pretos, os mortos estavam em paz. Ela é que não estava. Assombra-se. O silêncio e o vento, os mortos… 

Piscou e reviu a montanha descoberta, os braços e pernas moles, o vermelho seco e o cheiro de ferrugem. O fedor de morte empesteando tudo. Os fantasmas começavam a atacar. 

Ela usava os sapatos de um morto. Em breve, vestiria também um saco preto. 

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