domingo, 28 de fevereiro de 2016

A pena e o espartilho



TÍTULO: A pena e o espartilho
AUTORA: Cecilia Prada
EDITORA: Unisinos

A pena e o espartilho foi um dos meus achados nos balaios de saldos da Feira do Livro de Porto Alegre. Adquiri o exemplar por irrisórios R$5,00, interessada pela proposta e pelos nomes citados nos artigos. Não me decepcionei! 

O livro reúne 13 artigos de Cecilia Prada, todos com o objetivo comum de analisar o papel da mulher na literatura nacional. Nos primeiros artigos, discorre-se sobre as dificuldades encontradas pelas mulheres que desejam ser escritoras ou jornalistas, assim como se comenta a dificuldade de encontrar material investigativo sobre as mulheres escritoras. No excelente artigo que dá nome ao livro, a autora nos apresenta nomes pouco citados, como de Josefina Álvares de Azevedo, parente do famoso autor do Romantismo, que escrevia e que fundou um dos primeiros jornais em defesa da libertação feminina no Brasil, o A Família. 

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Cabia às mulheres escritoras um papel quase
secundário. Muitas delas escreviam seus textos
e jamais publicavam. Muito do material literário
produzido por essas mulheres se perdeu ao longo
do tempo. 


Há ainda o retrato das mulheres de 22, aquelas que participaram da Semana de Arte Moderna e das quais dificilmente ouvimos falar. Entre elas, há a pianista Guiomar Novaes, que estudos com Debussy. Em outros textos, a autora se debruça sobre escritoras como Clarice Lispector, Cecília Meireles e Vilma Guimarães Rosa, comentando suas trajetórias literárias, suas vidas e o reflexo de sua obra na literatura.


Como um todo, o livro relata a luta das mulheres para conseguir seu espaço na literatura nacional, não apenas enquanto autoras, mas também como personagens das obras, já que em muitas obras a figura feminina tem papel secundário ou é tratada dentro da dualidade santa intocável/figura demoníaca. 

Por tudo isso, a discussão gerada pela coletânea é excelente. Com dados concretos e um olhar apurado, Cecilia apresenta um retrato coerente e realista das dificuldades encontrada pelas mulheres que, ao longo do tempo, buscavam a liberdade de escrever, trabalhar e ser reconhecidas pelo seu talento. 

Aos representantes das diversas minorias, e, portanto, à mulher, a sociedade culta impõe sempre uma obrigação de excepcionalidade. O passaporte par o reconhecimento, nem que seja o simples arrolamento histórico, é para esses obrigatoriamente o talento extraordinário, a genialidade, o heroísmo. Ou uma ‘férrea força de caráter’, uma persistência quase milagrosa, mantida apesar de todas as circunstâncias desfavoráveis. À mulher, ou ao minoritário em geral, cabe o ônus de prova nunca exigida da mera normalidade do ser privilegiado, situacionista – enfim, ao sujeito plenamente autorizado da sociedade. Página 31 

O recado foi dado. E é com uma escrita fluída e bem trabalhada que Cecilia Prada nos apresenta a autoras esquecidas e reforça a qualidade da produção daquelas que já receberam reconhecimento. A obra está mais do que recomendada, não apenas para quem estuda ou se interessa pela literatura brasileira, como também para pensar o papel feminino na sociedade atual. 

Um comentário:

Rosa Mattos disse...

oi Niki, um belo achado, realmente. Ótima a postagem. Achei a premissa do livro muito interessante e fiquei bem curiosa pra ler.

beijos/
Rosa