sábado, 30 de janeiro de 2016

Circo Invisível



Jennifer Egan é uma autora premiada com o Pulitzer (por A visita cruel do tempo) e foi o nome dela que chamou minha atenção quando vi Circo Invisível nas bancas da Feira do Livro de Porto Alegre do ano passado. Após ler a sinopse do livro, decidi que seria uma escolha perfeita para conhecer o trabalho da escritora. Só depois descobri que o livro foi o primeiro da autora.

Circo Invisível se passa em 1978. A personagem central da história é Phoebe, uma adolescente de 18 anos que acaba de concluir a escola e já está com tudo encaminhado para cursar faculdade. Ela tem um emprego em uma cafeteria e vive com a mãe, além de receber constantes visitar do irmão bem sucedido. Dois fantasmas, no entanto, assombram a vida de Phoebe: seu pai, que morreu devido a leucemia quando ela ainda era uma criança, e sua irmã mais velha Faith, que se suicidou durante uma viagem à Europa.

Desde a morte da irmã, Phoebe tenta seguir seus passos e procura pela sua presença, tendo a irmã como um modelo. De repente, parece que tudo em sua vida está mudando e que ela está sendo levada para longe de Faith. É então que ela decide seguir as pistas da irmã, visitando os lugares em que ela esteve antes de morrer. O objetivo da busca é encontrar Faith, mas na verdade, Phoebe está a procura de si mesma.

Apesar de ser narrado em terceira pessoa, o livro tem foco nos pensamentos e sentimentos de Phoebe, que são descritos com perfeição. A intensidade é tamanha, que em muitos momentos o leitor se confunde com a própria personagem em suas vivências e essa é uma das grandes qualidades desta trama. Não apenas Phoebe, como os outros personagens, têm uma complexidade incrível, que fazem com que a narrativa se pareça com uma história real, como se tudo realmente tivesse acontecido. A protagonista não é perfeita, e seus defeitos e inseguranças ficam muito evidentes. Ainda assim, é impossível não se identificar com ela ou querer que tudo corra bem para ela, pois Phoebe acaba conquistando a simpatia do leitor.

A relação entre Phoebe e Faith é muito explorada, afinal, constitui o alicerce do livro. Conforme passamos as páginas, fica mais clara a natureza da relação entre as duas, a origem da admiração que a mais nova sente pela outra, assim como os sentimentos de inveja ou de falta. Faith é retrata como um espírito livre, uma garota ousada, sem medo e idealista.

Ao lado dos registros vívidos da infância de sua irmã, a própria existência de Phoebe parecia indefinida, e isso a confundia e a enfurecia. Sete anos mais nova, ela suportava a contragosto história de como Faith se atirava em tudo o que via com suas mãozinhas espalmadas [...] Todos comentavam sobre a sua ousadia [...] Página 44.

O enredo da história não é muito elaborado, pelo contrário, é relativamente simples, mas se torna brilhante ao desvendar e retratar as complexas relações familiares, a ligação entre irmãos e como as pessoas lidam com as perdas de formas diversas.

Apesar de toda essa densidade, Circo Invisível é um livro para ser devorado. A leitura é tão envolvente que é possível passar horas vencendo as páginas sem que você perceba o correr do tempo. A linguagem é acessível e bem atual: segue a norma culta, mas não há emprego de palavras rebuscadas nem qualquer tipo de construção que prejudique a fluidez da leitura.

Além de a leitura ser fluida e de os personagens serem bem intensos, ela desperta muitas reflexões sobre relações familiares, sobre descobrir a si mesmo e libertar-se da sombra dos outros e do passado. 

Se você procura por um livro com carga dramática bem medida, personagens densos e um enredo reflexivo, Circo Invisível é uma ótima pedida. Fica a dica pra vocês e da minha parte, espero ler outros títulos da autora em breve.

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