quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O imutável


Mesmo numa cidade de interior existem ruas e lugares que mudam rapidamente e aqueles que permanecem praticamente inalterados por muitos e muitos anos. Pensava sobre isso durante uma viagem de carro rumo ao cemitério do bairro em que eu passei os primeiros anos da minha infância e no qual meu avô e minha avó viveram durante anos.

Conforme percorria a estradinha de chão batido, me lembrei das muitas vezes que percorri aquele caminho a pé, com meus pais, para visitar a casa dos meus avós. Eu caminhara ali muitas vezes. Ralara ali os meus joelhos e pegara flores nas moitas ao redor da estrada.

Passamos pela ponte sobre o arroio. Já não dava para ver lá embaixo a água passando porque a vegetação cresceu demais e agora cobria as laterais da estrada, mas muitas vezes passei ali e tive medo de cair na água e morrer afogada. Um dos meus pesadelos infantis.

O carro foi seguindo e fora a vegetação que cobriu o arroio, nada mais parecia ter mudado. As mesmas casas pelas quais passava anos atrás estavam lá, nos mesmos lugares. Ainda havia o verde gramado dos potreiros nos quais as vacas pastam.

E então passamos pela casa. Lá, meus avós viveram durante anos. Era uma casa muito antiga, que suscitava medo em mim quando eu era pequena. Os móveis escuros, os rangidos, tudo amedrontava quando pernoitávamos ali, eu e as irmãs e as primas e primos.  Mas agora só me trazia saudosismo.

O quintal amplo ainda tinha o galpão de madeira onde as vacas eram ordenhadas. Podia ver os lugares onde ficavam as casinhas dos cachorros, a Tuca e o Fiél, e o velho poço, daqueles antigos: um buraco no chão cercado por uma amurada de pedra. Daquele buraco escuro puxávamos água, usando um balde preso a uma corda e bebíamos em uma canequinha. E ele também era objeto de medo, já que era muito escuro lá dentro.

O lugar onde ficavam os canteiros da minha vó, a casinha na qual ficavam as tranqueiras e onde um gato malhado adorava deitar pra tomar sol, o cantinho das plantas que “dormiam” quando encostávamos nelas. Todos aqueles lugares estão cheios de memórias antigas, que há muito tempo estavam esquecidas na minha mente.

Mas o carro continuou andando porque esse não era o nosso destino naquele dia. E a estrada continuava até o pequeno cemitério.

Fiquei triste ao ver que os eucaliptos em frente ao lugar foram derrubados. Eles faziam uma sombra espetacular. Isso não encobriu a tristeza maior do dia, mas foi uma percepção que me decepcionou. Segui para o túmulo da minha avó, que agora meu avô dividiria com ela.

Estava cercada de parentes e amigos queridos e também por mais lembranças. Meus avós administravam aquele cemitério. E eu me lembrei de um dia de verão. Havia dormido na casa deles e por algum motivo, nenhuma irmã ou prima estava comigo naquela ocasião. Eles acordaram cedo para ir limpar o cemitério e eu os acompanhei. Eu me lembro que meu avô estava cuidando de algumas plantas – milho ou cana talvez – que estavam crescendo num dos cantos da propriedade que ainda não tinha túmulos, enquanto eu ajudava minha avó a varrer as lajotas de caminhos entre os túmulos e a tirar as flores murchas de cima das lápides. Eu não tinha medo dos mortos, nem sofria por eles. Nunca havia conversado com eles, não os tinha tido ao meu lado.

Mas naquele momento em que me lembrava, as coisas eram diferentes. Todas aquelas pessoas passaram por aqui. Todas elas amaram, tiveram ou foram filhos de alguém, sofreram, riram e tiveram um cortejo, como o meu avô estava tendo.

Quando o enterro acabou estava me sentindo um pouco esgotada, triste e aliviada ao mesmo tempo. É difícil descrever a situação do luto.

Tomei a estrada de volta, olhando novamente para os objetos das minhas lembranças, personificados através da falta de mudança. Naquele recanto parecia que o tempo havia parado e que as coisas tinham permanecido no mesmo lugar durante muito tempo. Mas as pessoas haviam chegado e partido. A casa dos meus avós já não era deles. Outras pessoas moravam ali. Mas quando passei por ela, pude ver a minha avó na varanda próxima da horta, com seu vestido florido, e meu avô na entrada do galpão, talvez com um fardo de cana para dar aos animais.

O tempo havia passado, meus avós haviam partido e deixado pra trás todas aquelas lembranças. E aquele continuava sendo um lugar tranquilo, com terra plantada e gado pastando. É assim em algumas partes do interior: as pessoas vêm e vão com o tempo que lhes é dado, mas a natureza continua sólida ao redor, recebendo e dando adeus, indomável e imutável. No meu interior, tudo encerra lembranças. 


*Texto publicado, originalmente, no site Do meu interior.

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