sexta-feira, 17 de abril de 2015

Na chuva



As gotas faziam barulho quando se espatifavam contra o vidro e contra a madeira da casa. Depois disso, como sangue, elas vertiam, agarradas à superfície.

Ingrid queria muito estar lá fora, sagrando água, mas isso seria bastante inadequado para uma mulher de 25. Banho de chuva era coisa de criança e ela já era uma mulher adulta, divorciada e madura o suficiente.

Mas... De alguma forma a chuva chamava cantando lembranças que ela há muito buscara esquecer. Os dias de infância nos quais corria pela lama com os irmãos e com o cachorro. Na lembrança aquilo parecia um pedaço de paraíso.

Ouviu um pigarro e virou, voltando a atenção para um homem pouco mais velho. Ele tinha um ar sério com seus óculos de aro redondo.

-Parece que está tudo certo. Não há mais nada pra assinar – declarou com um tom formal desnecessário. Ela dormira com aquele homem por seis anos. Casara-se com ele. Vira-o com outra. Formalidades eram desnecessárias.

-Então está bem. Vou pra casa – retrucou dando de ombros e começando a seguir na direção da porta.

-Posso dar uma carona – ele se adiantou.

-Não, obrigada – respondeu.

Quando encarou o rosto dele, ainda hesitante, tenso, ela soube o que tinha que fazer. Não precisava ser daquele jeito. Ela não tinha que deixar de fazer nada para ser adulta, não devia nada a ninguém.

Perto da porta retirou as sandálias e saiu. Seus pés descalços tocaram a grama túmida e ela fechou os olhos sentindo-se indescritivelmente livre. A água fez pesar seu vestido e seus cabelos enquanto caminhava e era muito bom.

Na calçada, algumas pessoas olhavam para ela debaixo dos seus guarda-chuvas pretos com uma expressão estranha, mas ela limitou-se a levantar a cara, deixando a água correr por ela e continuou caminhando.

A chuva era liberdade. E ela era livre.

***

Fazia um tempo que eu não postava contos por aqui. Achei esse aqui perdido nos meus rascunhos e decidi compartilhar. Espero que vocês tenham gostado ;)

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