quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

[LENDO CLÁSSICOS] O que são clássicos? Por que lê-los?



De vez em quando me deparo com discussões sobre clássicos por aí, na internet ou entre pessoas com quem converso, já que adoro conversar sobre livros e sempre estou em ambientes propícios pra esse assunto. Com isso tudo, já vi muita gente reclamar de clássicos sem ter lido ou apenas se baseando em experiências ruins com leituras obrigatórias na escola. Então, eu decidi criar uma coluna aqui no blog para falar sobre isso, sobre a minha experiência com clássicos, com um pouquinho das teorias e percepções que a minha formação me passou.

E para começar essas conversas sobre clássicos, achei que o melhor seria esclarecer de uma vez por todas o que é um clássico, porque um livro passa a ser considerado como tal e por que é tão importante lê-los. Não é tarefa fácil resumir tudo isso em uma postagem, mas espero esclarecer esses pontos sem me estender demais aqui.




O QUE FAZ UMA OBRA CLÁSSICA? 

Vamos começar pelo conceito: é considerado um clássico o livro que trata de temas universais e atemporais. O que isso quer dizer? Temas universais seriam assuntos que dizem respeito à humanidade como um todo e não apenas a um grupo específico ou a um único país e atemporais são aqueles assuntos que sempre permanecem atuais, sempre preocuparam e preocuparão o ser humano. Alguns desses temas, comumente encontrados em obras clássicas, são o amor, a morte, a solidão, a tristeza e a religiosidade.

Porém, não basta a uma obra tratar de um desses temas para se tornar um clássico. Ela precisa ter sua linguagem trabalhada para gerar o efeito desejado e precisa trazer inovações de estilo. Além disso, é usual que o clássico fuja do clichê, do previsível, e explore enredos ou nuances diferentes de outras obras já escritas.

Sobre o reconhecimento de uma obra como clássica, Muniz Sodré (1988, p.6) diz que:
É importante ter em mente o seguinte: o circuito ideológico de uma obra se perfaz apenas em sua produção mas inclui necessariamente o consumo. Em outras palavras, para ser ‘artística’, ou ‘culta’, ou ‘elevada’, uma obra deve ser reconhecida como tal. 
Ou seja, para ser considerada um clássico, uma obra passará pelo crivo acadêmico e pela aprovação leitora. Apenas o público leitor (seja ele acadêmico ou não) poderá tornar uma obra clássica, a medida que ela for lida e disseminada.



POR QUE LER OS CLÁSSICOS? 

Há um texto de Italo Calvino, contido no livro Por que ler os clássicos, da CIA das Letras, que tem uma ótima explanação sobre os clássicos e suas leituras. E na conclusão desse artigo, o autor diz que:

[...] para que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque "servem para qualquer coisa. A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos."
CALVINO(1993, p. 16) 

Ao longo de seu texto, Calvino expõe diversas razões pelas quais se deve ler um clássico, mas no final das contas, nada pode obrigá-lo a ler esses livros se não a vontade de lê-los e o amor pela leitura.

É claro que na escola, essas leituras passam a ser obrigatórias e o próprio Calvino defende a importância de livros clássicos serem apresentados aos estudantes quando diz que essa é uma forma de dar ao aluno ferramentas para escolher os seus próprios clássicos. Não vou aprofundar essa questão agora, pois pretendo desenvolvê-la melhor numa outra postagem, mas concordo com essa premissa.

O fato é que um livro clássico pode ser lido por simples curiosidade, porque você viu uma adaptação cinematográfica e gostou, porque um professor indicou ou por outros motivos. E como essa postagem é minha, vou destacar as razões que eu identifico e que considero motivadoras para a leitura desses livros.

Um deles é conhecer a cultura literária do seu país ou do mundo e compreender como as produções literárias ao longo do tempo se modificaram e como elas nos influenciam culturalmente até hoje. Sim, existem muitas influências da literatura clássica por aí, seja em livros best seller (A série Nevermore usa a obra de Poe como base), seja em filmes e séries de TV (10 coisas que eu odeio em você foi baseado na peça Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare, assim como a novela brasileira O cravo e a rosa foi baseada em outra peça dele, A Megera domada) ou outras mídias (O personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, foi garoto propaganda de remédios contra vermes), na terminologia médica (Síndrome de Peter Pan),... Essas referências, sejam pequenas ou grandes, estão por toda a parte e se você não conhece essas obras, muita coisa pode escapar à sua percepção.

Ler os clássicos também é um forma de se colocar no lugar do outro e essa é, pra mim, uma das melhores características desses livros. Por quê? Porque a humanidade precisa mais disso. Precisamos aprender a nos colocar no lugar do outro, a pensar sobre os seus sentimentos e percepções e saber que são diferentes dos nossos. E isso é algo que um clássico faz muito bem! Não significa que um livro best seller não possa fazer você refletir também, mas os clássicos costumam abordar a humanidade de uma forma mais intensa, provocando aquela sensação de "soco no estômago" e desconforto que faz sair da zona de conforto. Na literatura brasileira, livros como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e A hora da estrela, de Clarice Lispector, são muito eficientes nesse sentido, por nos apresentarem realidades de uma forma que nos faz sentir raiva, pena, tristeza e identificação, tudo isso numa única leitura.

Concluindo, eu leio clássicos porque eles sempre me revelam novas nuances sobre as pessoas e o mundo, porque me fazem refletir sobre a humanidade, me colocar no lugar do outro e compreender diferentes visões de mundo. Leio clássicos porque eles me contam um pouco sobre cada parte do mundo, porque me fazem perder preconceitos e adquirir um tipo de saber que ninguém pode me dar. Porque eles me transportam para outras épocas e ainda assim me dizem coisas atuais.

Eu leio clássicos porque amo ler e ponto.

E vocês, leem clássicos (ou não) por quê?



REFERÊNCIAS:

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. 5ª edição. São Paulo: CIA das Letras, 1993. O capítulo que usei como base pode ser lido AQUI

LAPA, Isabel. 8 Motivos que tornam um livro em um clássico. 2013. Disponível em:  http://literatortura.com/2013/07/8-motivos-que-tornam-um-livro-em-um-classico/. Acesso em 16 ago. 2014. 

SODRÉ, Maniz. Best-Seller: a literatura de mercado. 2ª edição. São Paulo: Ática, 1988. 

Universia Brasil. O que é um livro clássico? 2014. Disponível em:  http://noticias.universia.com.br/destaque/noticia/2014/02/25/1084259/e-um-livro-classico.html. Acesso em: 16 ago. 2014.
Imagens: primeira e segunda.

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