quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Homenagem a Manoel de Barros




A poesia não é um dos gêneros mais apreciados aqui nas nossas terras tupiniquins, principalmente porque costumamos estudar esse gênero literário na escola, em meio a regras de períodos literários e com pouco espaço para a interpretação e a simples apreciação do linguajar poético e do quebra-cabeças de palavras que é um poema.

No entanto, existem alguns poetas como Mário Quintana ou Vinícius de Moraes, por exemplo, que conseguem transpor a escola, e acabam caindo no gosto das pessoas sem que elas se deem conta, numa música ou citação.

Mas esse post não é sobre isso. Apesar de os brasileiros não serem leitores tão assíduos de poesia, há muitos autores fantásticos desse gênero por aqui. E um desses gênios nos deixou hoje. Manoel de Barros tinha 97 anos e faleceu esta manhã. Ele já estava internado há duas semanas e teve falência múltipla dos órgãos.

Manoel foi autor de mais de 30 livros e recebeu inúmeros prêmios, incluindo dois Jubutis, em 1989 e 2002. Ele deixa um legado literário fantástico e acredito que não há homenagem melhor a esse grande artista do que ler um de seus livros e se transportar com a magia de suas palavras.

Do autor, já li o Livro sobre Nada, que me foi apresentado numa disciplina da faculdade, e me encantei. Pouquíssimos poetas conseguem ser tão simples, tão singelos, e ao mesmo tempo tocar tão fundo o coração de quem lê, não de uma forma piegas, mas com um quê de inocência infantil, de ver o mundo com olhos frescos. É sempre difícil falar de poesia, porque ela é, pelo menos na minha percepção, o mais subjetivo dos gêneros e toca a cada um de uma maneira.

Fica a minha homenagem ao autor e ao seu incrível trabalho. E para quem jamais leu uma obra sua, fica um de seus poemas, bastante significativo.

O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Um comentário:

HONORATO, Sandro disse...

Muito bela a sua homenagem :)
É triste a noticia,mas pelo menos no seu haverá um pouco mais de poesias agora ^^

Beijos
www.rimasdopreto.com