quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Até parar de respirar




Não havia nada além dos seus pulmões cansados, buscando o ar sofregamente. Estava de pé, com o vento frio passando pelo casaco fino de moletom, e suas mãos estavam pousadas sobre o peito que não conseguia encontrar um ritmo para subir e descer. Era tão inconsciente pousar as mãos ali, afinal, seus dedos não poderiam se entranhar na carne e abrir um rombo nos tubos do seu corpo, nem fazer o ar entrar por eles da forma como deveria ser. Mas ela não pensava nisso enquanto estava ali parada. Não pensava em nada além de que precisava fazer seu sistema respiratório pegar no tranco de alguma forma, porque não demoraria muito para precisar voltar a correr.

Fechou os olhos e buscou se concentrar. Respirar é algo tão elementar... Por que seu organismo idiota não podia aprender a fazer aquilo direito? Tentou puxar muito ar, mas antes de terminar, soltou tudo junto com um chiado sôfrego, enquanto seu peito ardia. Aquele ar gelado não estava ajudando e sabia disso, mas que escolha tinha? Tentou repetir a operação, encolhendo os braços contra o tronco para se aquecer, mas... nada.

Sentia o próprio desespero crescer a cada tentativa falha de fazer a respiração voltar. O pânico se alastrava por todo o seu corpo, ajudando-o a se fechar, a não permitir mais que o precioso oxigênio chegasse para livrá-la daquele horrível sentimento de opressão.

Sentiu lágrimas nos olhos e escancarou a boca, tentando usá-la como um escape de emergência pra a função que as narinas não estavam desempenhando conforme esperado. O ar chegava, mas não era o suficiente: seu organismo inteiro ainda protestava, a queria quietinha e encolhida, mas ela não podia fazer aquilo.

Fez uma careta pensando na hipótese de correr mais um pouco. Iria se matar se fizesse isso. Iria morrer se ficasse ali parada.

Já podia ouvir o som: eles estavam se aproximando.

Tossiu uma vez e sentiu que tinha melhorado um pouco. O suficiente, ela esperava, para poder seguir por mais alguns metros e achar um lugar pra se esconder.

Fechou os olhos e sentiu o pulmão se aquietar, um pouco satisfeito, antes de dar impulso nas pernas para ir em frente.

E em menos de um minuto, já estava ofegante, mas continuou correndo. Havia algum instinto estranho a impulsionando. De um jeito ou de outro, acabaria morrendo naquela noite: se não a alcançassem, a simples falha da função respiratória causada pela asma a mataria. Não poderia mais respirar. Em algum momento, sabia, não conseguiria mais dar nenhum jeito sem a bombinha ou o nebulizador, e então teria os piores momentos da vida, sem conseguir se manter e sentindo que a vida se esvai enquanto todo o seu corpo luta contra isso.

Correu até o fim da rua. A maior parte do bairro estava escura e deserta, a não ser pelos seus perseguidores. E um deles surgiu de um beco, as mãos estendidas para frente para alcançá-la enquanto galgava os metros com uma lentidão aterrorizante.

Se tivesse ar o suficiente, ela teria gritado. Mas não tinha. Então correu. Correu e sentiu que aos poucos morria, os olhos se perdiam, ela estava tonta e a boca aberta já não chupava o ar como ela queria. Não podia parar, mas precisava parar. Ouvia os gemidos deles... Tão perto

3 comentários:

Paula Lisboa disse...

Uou, agoniante. Fiquei incomodada, parecia que me faltava ar também. Sensacional!

Gabi S disse...

Gostei bastante praticamente me coloquei no lugar da menina, ai me lembrei dos circuitos de educação física do professor Viro do Cimol onde ele nos seguia com sua Dream, e corríamos feito loucos.
Super bem escrito nossa! Não sou das humanas mas dá para perceber talento ai menina!

Camila Deus Dará disse...

Muito bom, como a Paula ali em cima disse, fiquei incomodada também, você passou bem a mensagem que queria, a gente pode sentir da mesma forma que a garota. :)

Beijos :)