terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O coração das trevas

Foto por Joshua Hoffine : Site do fotógrafo.


A condessa Elisabeth era famosa por sua riqueza e por sua beleza única. A pele de porcelana, que cobria um corpo de curvas voluptuosas, fazia contraste a seus olhos de um cinzento escuro e combinava bem com seu cabelo ruivo, costumeiramente preso no alto da cabeça, como mandava a moda da época.
Havia, no entanto, muito escondido por trás da imagem opulenta da mulher. Casara-se com um rico mercador, que buscava o título de nobre, e seu marido passava a maior parte do ano viajando. Dessa forma, tinha muito tempo para suas diversões particulares, que fugiam muito ao que as demais mulheres da nobreza considerariam prazeroso.
Enquanto as outras damas, aos verem livres de seus cônjuges promoviam orgias com criados ou trocavam cartas apaixonadas com seus professores de piano, Elisabeth se comprazia com o sofrimento alheio. Porém, ia muito além daquilo que as mulheres azedas normalmente consideram justo à sua diversão: não usava da fofoca e da língua para realizar suas atividades.
Havia certa sala em sua casa, oculta e misteriosa, onde ela passava a maior parte de seu dia, quando estava só. Costumava carregar junto consigo, sua velha e fiel dama de companhia, Jane, que em tudo lhe ajudava.
Jane era encarregada de levar uma das criadas mais jovens ao quarto misterioso. O medo dos castigos da patroa sempre fazia com que as meninas seguissem a velha até lá.
Uma vez dentro do quarto, tal menina era como um camundongo indefeso capturado por uma ratoeira: podia tentar fugir de todas as formas, mas não conseguiria.
A diversão de Elisabeth começava ali: entre facas, cordas e instrumentos de tortura herdados de seus parentes antigos, ela fazia em pedaços as pobres meninas, lentamente, sentindo uma fagulha a mais de alegria a cada grito reprimido pela mordaça que costumava usar.
Jane assistia obediente, no canto da sala, sem dizer palavra.
Quando acabava sua festa, a condessa tirava fora as vestes sujas de fluídos e ia-se para um banho morno de tina, cantarolando, enquanto Jane livrava-se do corpo da vítima do dia e limpava o antro de sua senhora.
Muitos anos passaram-se assim. Enquanto o marido estava na casa, a sala de tortura permanecia trancada, e Elisabeth era a recatada esposa que se esperava que fosse.  Quando ele viajava, ela se divertia ardentemente, mergulhada em sangue, choros, gritos e mortes.
O tempo trouxe rumores, entretanto. Dizia-se que as criadas da condessa sumiam misteriosamente e boatos começaram a contar que a própria condessa as matava. Com tais ditos circulando, poucas meninas se atreviam a servir a casa de Elisabeth e ela teve que reduzir suas diversões, tornando-se furiosa com tudo ao redor.  
Certa noite, nesses tempos, a mais nova jovem contratada foi levada a seu quarto, para escovar os longos cabelos da patroa.  A menina sentou-se, nervosa, vislumbrando as costas da mulher e seus cabelos longos. Começou sua tarefa, tomando cuidado com os fios, mas puxou um pouco o cabelo algumas vezes. Quando o fazia, Elisabeth esbravejava, e a menina ficava mais nervosa. Por fim, um puxão arrancou alguns fios de cabelo da cabeça de Elisabeth, que se ergueu zangada e tomou a escova das mãos da criada. Xingou-a em altos brados, enquanto batia na menina com o objeto.
A criada chorava, implorava, mas a senhora não parava. Por fim, fez a menina ocupar a penteadeira e tirou os cabelos dela da toca que vestia. Cabelos castanhos e sedosos se revelaram e a senhora guiou a escova até eles com violência, arrancando amontoados de fios enquanto a menina chorava e o sangue começava a correr em filetes, conforme as cerdas da escova arranhavam seu couro cabeludo.
Ao fim de algum tempo, Elisabeth se deu por satisfeita e atirou a escova para um canto do quarto, enquanto caminhava por ele. Ordenou à criada que fosse embora e que não contasse o que se passara.
Logicamente, as demais criadas tinham ouvido tudo e esperavam a menina na entrada de sua ala. Ficaram imediatamente horrorizadas com a loucura de sua patroa e naquela mesma noite, fugiram todas.
Pela manhã, quando a fiel Jane lhe informou o ocorrido, a patroa teve um novo acesso de fúria e tomou nas mãos um atiçador da lareira, que usou contra a velha.
Gritava e xingava ensandecida, enquanto fincava o ferro nas carnes da antiga criada, que protestava, pedia clemência, afinal, ajudara-a todos esses anos.
Tudo isso só fez Elisabeth se enraivecer ainda mais e ao fim de algumas horas, o corpo de Jane jazia inanimado e dizimado.
Isso provavelmente seria o suficiente para condená-la a forca, não fosse ela esperta o suficiente.
Limpou tudo sozinha e quando o marido voltou de viagem, correu para ele, chorosa e abalada, afirmando que descobrira uma coisa hedionda. Contou a ele uma falsa história de que Jane teria torturado e até matado várias criadas e que na semana anterior, Elisabeth a pegara batendo em uma delas. Horrorizada, chamou a velha e a repreendeu, demitindo-a.
Mesmo com tal ação, as outras criadas fugiram todas, amedrontadas demais para continuar no trabalho e agora ela, Elisabeth, estava perdida e sozinha.
Seu relato foi tão convincente, que seu marido acreditou e reportou a história ao oficial de justiça. A casa ganhou novas criadas e o marido ficou com Elisabeth, que aparentava estar muito satisfeita agora. Tão alegre ficou, com a dissolução dos boatos de que ela seria a criminosa, que resolveu organizar um grande baile, às pressas.
A noite da festa chegou e a dama preparou-se como nunca, com um vestido cheio de pérolas e bordados. Estava exultante, esperando a hora em que seus convidados chegariam, numa sala de visitas que coincidentemente era a mesma em que matara Jane, quando ouviu um estrondo curioso.
O barulho aumentou e ela levantou-se do sofá, desconfiada.
Com um grito de admiração, viu que uma cratera se abria no chão, quebrando o soalho da casa e formando um grande buraco, escuro e sombrio.
Correu para as portas da sala, mas elas estavam trancadas, e o buraco parecia sugá-la, chamá-la. Gritou forte, quando um braço saiu de dentro da fenda, pálido e sujo de terra, e se dirigiu a seu calcanhar, segurando-o com força e puxando-o.
Debateu o pé, perdendo um dos sapatos, mas a mão não a soltou e ao invés disso, surgiu outra que prendeu a outra perna. Cada vez mais desesperada, a condessa gritava, chamando os criados, o marido, qualquer gente que pudesse ajudá-la, mas ninguém apareceu, além dos braços que pareciam se multiplicar para fora do buraco, agarrando-a e puxando-a, enquanto ela resistia.
Por fim, estava tão imersa naqueles membros frios e cadavéricos, que nenhuma força que fazia conseguia impedi-los e eles começaram a jornada de puxá-la para eles, até que estivesse dominada e submersa.
O buraco se fechou lentamente, enquanto a mulher afundava no mar de morte daqueles braços, aprisionada e torturada para sempre, vitima do seu próprio pecado.

*** 

Olá, pessoal.
Com esse conto, ganhei o primeiro lugar na categoria juvenil do concurso do IPDAE em 2011. Ele seria publicado numa coletânea, mas o tempo foi passando e apesar de eu ter entrado diversas vezes em contato com a instituição que organizou o concurso e que publicaria a tal antologia, não houve de fato essa publicação. Decidi, então, publicá-lo aqui no blog, para que de alguma forma, vocês possam lê-lo!

P.S.: Esse conto foi inspirado na história e nas lendas envolvendo uma figura histórica: a condessa Elizabeth Bathory. Vocês podem conhecer a história dela NESSE LINK.

2 comentários:

Mary disse...

Boa tarde,estou encantada com os posts,venho convidá-la a participar do Concurso Talentos Literários,aguardo você.beijos atenciosos

Elder Ferreira disse...

Você é muito talentosa, continue escrevendo e parabéns pelo primeiro lugar no concurso!

Não conhecia a condessa em questão e gostei do fato de você ter feito referência ao fotógrafo na imagem que você colocou no post (dificilmente fazem isso, os fotógrafos trabalham e são esquecidos, coitados).

Elder Ferreira, http://oepitafio.blogspot.com.br/