sábado, 27 de outubro de 2012

A canção de ninar da neve




A noite já estava na metade quando acordou e deixou o quarto, no andar superior da mansão. Sem uma vela para acender, deixou o cômodo tateando a parede e sentindo um arrepio quando seus pés tocaram o mármore da escada que levava ao andar de baixo.
Devia ter pedido à Naná para encher sua jarra com água antes de dormir e se repreendia mentalmente por ter esquecido disso, quando chegou à sala e observou uma estranha luz que vinha da rua.
Era o luar que, refletido na neve, criava aquela luz bonita e ela foi até a janela observar o que se passava lá fora, vendo que havia uma coruja branca pousada sobre uma das colunas do portão. A ave piou e voou para a floresta, deixando-a sozinha, observando o vazio.
Decidiu, talvez por mera curiosidade, tentar encontrar o animal e para isso foi até o hall, colocando uma capa sobre os ombros e sapatinhos para andar pela neve.
Mal saíra e o gelado da noite entranhou em seus ossos, fazendo-a arrepender-se um pouco da ideia. Se parasse para pensar, não tinha porque ir lá fora àquela hora da noite para avistar uma ave... Mas ainda assim, não titubeou e seguiu pelo caminho usual dos carros que entravam na propriedade, indo parar na frente da coluna em que a coruja estivera. Não havia mais nada ali, nem nas proximidades e ela soltou um muxoxo.
Devia voltar para casa e deixar de fazer esse tipo de tolice no meio da noite. Ia acabar congelando ali.
Ia se virar quando ouviu a coruja novamente e conseguiu enxergá-la numa das árvores da floresta. Era quase como se a ave a convidasse a segui-la e a moça aceitou o convite, passando pelo portal das colunas e andando até as árvores.
Lá, chegou muito perto da coruja, mas esta fugiu novamente para os céus, deixando a menina sozinha, na entrada da floresta, com frio.
Que tolice, ela pensava, mas que tolice mesmo ficar de brincadeiras com uma coruja numa madrugada fria daquelas. Ia voltar para dentro e se aquecer, torcendo para que Naná nada descobrisse.
O pio da coruja veio do interior da floresta e trouxe-lhe nova dúvida. A coruja era tão bonita, grande e branca, e era tão difícil ver uma dessas... Está certo, seguiria mais um pouco.
Foi passando pelas árvores mortas pelo inverno intenso e chegou a uma clareira, onde conseguiu ver o animal pousado majestosamente. O frio não a incomodava mais e ela sentou-se no chão, observando a coruja, que também a fitava.
A ave piava, como numa canção, algo que, ela sabia, corujas não faziam.
E ficou observando, escutando e partindo para outro mundo enquanto escutava. Para o mundo dos sonhos, para dormir sobre a neve. Para sempre.


***

Olá, pessoal. Fazia muito tempo que eu não escrevia do jeito como escrevi esse conto, sem um plano inicial específico do que era para ser a narrativa e me baseando numa música (nesse caso foi "Escapist" uma canção da minha banda preferida, Nightwish), mas foi bom escrevê-lo e espero que a leitura esteja agradável também.
Até a próxima.

Um comentário:

Isie Fernandes disse...

Oi, Niki.

Que legal esse conto, amei! Acredita que, quando a menina começou a adentrar a floresta por entre as árvores mortas, eu imaginei que ela se deitaria na neve e morreria? =)

Parabéns pelo conto! Ele ficou leve, inocente e, ao mesmo tempo, forte.

Beijos,

Isie Fernandes - de Dai para Isie