quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O último suspiro: VIII - Pensamentos


O último suspiro

VIII : Pensamentos

Depois de uma semana e meia, Samuel notou que o irmão novamente saíra de casa.
Erida estava na sala, ainda vestida, cara cansada.
-Acho que falhei. – Ele disse.
-Não se culpe. Você até teve progresso. Não sei se algo fará com que pare. Ele anda em desespero. Tenho medo de que tenha apostado muito alto e perdido.
-Acha que ele pode estar sendo ameaçado?
-Não sei. – Erida levantou-se e caminhou pela sala, as mãos alisando a saia do vestido.
Samuel caminhou até ela, pousou-lhe as mãos nos ombros.
-Isso vai se resolver. – Disse, mirando os olhos azuis  e fugidios.
Aquele olhar ficou marcado na memória. Ao ir dormir, ele não conseguia tirar da cabeça aqueles olhos assustados, como duas poças d’água.
Samuel tentou, nos dias que se seguiram, descobrir pela cidade em que seu irmão andava metido. Demorou um tempo pra encontrar um colega de jogo que respondeu suas perguntas.
Naquela noite, ele esperou Erida assim que Alberto deixou a casa.
Mal ela adentrara a sala, ele começou a falar. Soubera que Alberto havia perdido uma verdadeira fortuna em apostas e que pedira dinheiro emprestado para jogar e tentar recuperar o que perdera. Obviamente, isso só aumentou as dividas. Por isso, andava desesperado atrás de dinheiro. Vinha ganhando um pouco, mas certamente perderia tudo outra vez. Era o vício de mãos dadas com o desespero.
Erida caiu no sofá, mirando o cunhado. Que poderia ser feito? Ela podia pedir dinheiro ao pai para quitar as dividas, mas e se o marido não pagasse? E se perdesse tudo? Deixaria as irmãs da esposa sem dote, nem herança.
Samuel sentou-se ao seu lado, passou o braço pelas costas.
Haveria jeito de resolver. Pensariam em algo.
Ela afundou a cabeça nas mãos. Que desgraça passava! Se soubesse que teria tanto desgosto, não teria casado com Alberto, o que fizera mais por obrigação do que por querer.
Passou algum tempo no silêncio dessas reflexões, antes de levantar-se. Iria se recolher, tentar dormir. Deu boa noite a Samuel e subiu as escadas.
Ele ficou ali, a impressão da proximidade da mulher. Queria que ela fosse sua e não do irmão. Cuidaria dela, se fosse assim, e ela não passaria suas noites fria e sozinha, insone ao piano.
O pensamento crescia em sua mente e a situação lhe dava um incentivo doloroso. Porque Erida era bonita. Era doce e inteligente. Sabia tocar piano, sabia ler. E talvez ele não parasse para pensar nisso se o irmão a tratasse como esposa.
Tentou pensar em outra coisa, talvez uma solução para a confusão em que Alberto se metera, mas era difícil afastar a mente dali, do perfume de Erida.
Resolveu-se por ir dormir. Era o melhor a fazer. Na manhã seguinte estaria com a mente mais clara e aqueles pensamentos loucos lhe abandonariam. 

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