quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O último suspiro: VI - Silêncio

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O último suspiro

VI : Silêncio 
Naquela noite, ela não tocou, apesar de Samuel ter ouvido o irmão sair.
Levantou-se e se aventurou pelo silêncio tão angustiante quando a música. Encontrou a cunhada sentada no lugar onde costumava tocar, o rosto caído pra baixo. Lágrimas.
Chamou-a e ela virou os olhos molhados, esfregando-os com a mão.
-Alberto saiu novamente? Não ouvi o piano... 
-Então você sabe? Achei que não escutasse.
-Você toca porque ele sai.
-Sim. Viciou no jogo. Agora vai quase toda noite. Já perdeu um bom dinheiro.
-Se eu soubesse antes... Posso conversar com ele.
-Seria muito bom, mas não sei se escutaria. Em todo o caso, talvez a você escute. A mim ele já não respeita.
-Falarei a ele, se isso a deixa tranqüila.
Na manhã seguinte, deixou-se ficar até mais tarde em casa. Iria tomar café da manhã com o irmão. Erida ainda estaria dormindo e poderiam falar francamente.
Sentou-se à mesa, encarou o outro.
-Quero conversar contigo. Sei que sai seguidas noites e me contaram na vila que anda jogando. É verdade irmão?
-Jogo às vezes pra me distrair. – O mais velho deu de ombros.
-Você sai quase todas as noites. Erida se preocupa com você. Ouço-a tocar piano, esperando você voltar.
-Ah, pois foi ela que andou espalhando fofocas por aí!
-De forma alguma. Já disse, ouvi comentários na vila.
-E que mal tem um homem se divertir depois de um dia inteiro trabalhando? É o que faço, não é condenável.
-Soube que perdeu um bom dinheiro nisso.
-O que é meu de direito, uso como quero. – Alberto retrucou, antes de retirar-se.
Samuel não quis segui-lo, contava que o irmão fosse pensar sobre suas palavras. Não lhe admirava a atitude dele. Alberto sempre fora voluntarioso. 
Foi para o trabalho, pensando em prestar atenção ao irmão naquela noite.
Sentiu-se feliz quando ele foi deitar-se, Erida o seguindo pouco depois. Talvez tivesse enfim caído em si.
E a semana transcorreu assim, sem piano nem lágrima, numa calmaria satisfatória. 

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