terça-feira, 2 de agosto de 2011

O último suspiro: IV - O piano

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O último suspiro

IV: O piano
Samuel dormiu até tarde na manhã que se seguiu ao baile. Não se lembrava de ter sonhado, tão profundo era o seu cansaço.
O almoço já estava perto de ser servido e ele achou melhor esperar pela refeição para comer. Apesar disso passou na cozinha. Roubaria uma fruta para colocar algo no estomago resmungão.
A cunhada já estava lá, supervisionando o trabalho das empregadas. Cumprimentaram-se, enquanto ele procurava um pêssego na cesta de frutas.
-Que achou do baile?
-Foi divertido como poucos. Na Europa não se fazem festas assim.
Ficou feliz pelo sorriso satisfeito da mulher.
O almoço foi servido em seguida, e a família comeu em silêncio, todos ainda fadigados pela mudança de rotina.
Samuel passou a tarde na cidade, cuidando de alguns detalhes para a abertura do consultório. Encontrara um bom lugar e fechou negócio com o dono, que exigiria uma quantidade pequena pelo uso do imóvel. Era um antigo amigo da família.
Chegou em casa exultante e contou as novidades na mesa do jantar, recebendo a alegria de Erida e Alberto.
-Temos que sair a comemorar, irmão. – Alberto disse, sorrindo largo, enquanto Erida recolhia a mesa. – Sei de um lugar em que não falta bebida e mulher.
Samuel sentiu-se desconfortável com a colocação do irmão. Viu de canto a mulher corar.
Declinou a proposta do irmão. Preferia descansar bem, amanhã cedo queria ir organizar o consultório.
Alberto não insistiu e o caçula achou melhor se retirar. Fechou-se em seu quarto, sentindo culpa pela proposta indecente. Pegou os livros de medicina e tratou de meter a cabeça neles, desviando sua atenção para ossos e órgãos. 
Só saiu de seu refúgio mais tarde, quando ouviu umas notas no piano lá embaixo. Já era tarde. Desceu a escada  e viu Erida sentada ao piano, o cabelo solto, caindo em cascatas cor de mel pelos ombros.
Fitou-o com uns olhos tristes, mas sorriu.
-Não tenho sono. Acordei-o com o piano?
-De maneira nenhuma. Vim apenas buscar água antes de me deitar.
Ela continuou tocando e ele seguiu seu caminho até a cozinha. Voltou ao quarto sem olhar para Erida. Devia estar magoada com os dois homens pela conversa depois do jantar.
Que não conseguisse dormir com o piano. Era seu castigo.
Saiu cedo na manhã seguinte, levando consigo os equipamentos de que precisava. Voltou para o almoço e sentiu alívio ao ver que tudo parecia bem. Erida já voltara a seu sorriso genuíno, os cabelos em trança sacolejando enquanto servia a mesa. O irmão calado.
Na mesma semana, Samuel começou a atender na cidade, e passava a maior parte do dia lá. Voltava apenas à noite e geralmente estafado.
Jantava e seguia para o quarto.
Já passavam alguns dias nessa nova vida, quando despertou na madrugada, o som do piano vindo da sala. Erida triste outra vez? O sono não lhe permitiu sair de onde estava e dormiu em poucos segundos.
Demorou algumas semanas para Samuel notar que ouvir piano na madrugada era comum. Três ou quatro vezes por semana, o silêncio da noite era quebrado pela música.  
O som atormentava-o. Não porque fosse ruim ou dissonante, mas porque lhe trazia angústia por Erida. Seu raciocínio era bom o suficiente para que ele deduzisse que a mulher tocava para matar o tempo, talvez aplacar a solidão da alma.
Fazia já um mês que acordava e ficava quieto na cama, ouvindo a música baixinha no andar de baixo, quando numa noite, acabou indo parar na sala.
Erida não notou sua presença e continuou seu ritual noturno, os olhos encarando as teclas, as mãos se movendo lentamente.
Ficou na porta alguns minutos, os olhos estudando aquela imagem de mulher etérea, o robe azul de cetim, sobre a camisola, a iluminação fraca da vela sobre a cauda do piano.
Voltou para o quarto e esperou que sua inquietação passasse e o sono voltasse.
Em alguns minutos Erida deixou o piano e ele pôde sentir seus passos no corredor, rumo ao quarto que ela devia dividir com o irmão.

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