segunda-feira, 18 de julho de 2011

O último suspiro: II - Baile de boas vindas

Nota: Aqui está a continuação do romance. Só para que não fique confuso, eu deixo a dica de que a história volta e avança no tempo ao longo das partes. 

O último suspiro 

II Baile de boas vindas

A chegada de Samuel àquela casa trouxe uns tempos de paz como há tempos não se via. Alberto fazia gentilezas à esposa, ria com o irmão, lhe ouvia as histórias da Europa com satisfação.
Era verão, e as janelas abertas deixavam entrar a luz do sol e uma brisa agradável, que espalhava um cheiro de flor de laranjeira.
O tempo que não era gasto com as tarefas da casa, Erida aproveitava para bordar ou ler na varanda, na sombra de uma figueira brava, que há muitas décadas crescia no quintal como uma testemunha muda da história familiar.
O cunhado surpreendeu-se com a leitura da jovem mulher, numa manhã de janeiro.
-Que prendada, cunhada! Sabe ler? – Exclamara.
-Sim, sei e gosto muito. Meu pai ensinou todas as filhas a ler. Talvez fosse um modo de aliviar sua frustração de não ter tido filho homem.
Sorriu e convidou-o a sentar na sombra também, que o sol já se fazia muito forte. Convite aceito, perguntou-lhe sobre a Europa. Ele lhe contou as histórias que o irmão não apreciaria, os bailes, os cafés polvilhados de pessoas das mais diversas partes, as belas damas que circulavam na rua...
E a cunhada ria, se empolgava, sonhando com aquele mundo desconhecido. Pararam a conversa quando a hora do almoço se aproximou e Erida partiu para a cozinha, a fim de supervisionar as criadas no preparo da comida.
Samuel ficou onde estava, pensando que o irmão era feliz por ter conseguido um casamento bom e uma mulher inteligente, não aquela moças bobas que só queriam saber de modas e fuxicos.
Depois do almoço, o rapaz selou seu cavalo e partiu até a vila, que ficava há cerca de meia hora dali. Iria procurar lugar para abrir seu consultório, onde trataria os doentes da região e ganharia a sua renda. Queria logo ter casa própria, pensava em casar.
E Erida parecia pensar nisso também, porque no jantar, comentou como seria de bom tom organizar um baile para apresentar Samuel ao povo da região.
-Todos conhecem Samuel! – O marido a contradisse. – Nasceu e se criou aqui.
-Mas deve estar pensando em arrumar uma moça pra casar. Assim, não tem melhor forma de encontrar uma do que em um baile.
-Se é assim organize o tal baile.
O sorriso de agradecimento iluminou a sala e nos dias seguintes Erida começou seus planejamentos. Escreveu convites, fez visitas para entregá-los, foi fazer vestido novo e comprar o necessário.
Alberto não reclamou das atenções da esposa ao evento, era bom que ela tivesse ocupação enquanto ele trabalhava no campo, supervisionando o trabalho dos empregados, ou cuidava de seus outros interesses. Volta e meia, saia durante a noite, para resolver assuntos dos quais pouco falava.
Assim, em um mês chegou a noite da festa e a sala da casa foi transformada num elegante salão, que logo encheu-se de convidados.
Samuel era apresentado a todos, que se mostravam muito interessados em rever ou conhecer o jovem médico. As irmãs de Erida tinham comparecido. Eram umas jovens muito agradáveis, mas ainda novas demais para que Samuel pensasse em fazer-lhes a corte. Por outro lado, as outras moças da festa não poupavam cochichos e flertes ao recém chegado. Era bom partido, bonito e alto, formado médico na Europa, de família rica. Era o sonho de muitas delas.
Samuel as tratou com gentileza, dançou pelo menos uma valsa com cada, ouviu conversas. A noite já ia alta quando conseguiu sentar-se, perto do irmão e de alguns parentes, enquanto bebia um champanhe e se refazia.
-Erida não dança, irmão? – Perguntou, atentando ao fato de que não vira o irmão com ela durante a noite.
-Se ela quiser, dance com ela por mim. Não tenho paciência para essas coisas de dançar. – Alberto retrucou.
Ele terminou o champanhe e procurou a cunhada, rodeada das irmãs, que rodopiavam imitando bailarinas.
Tirou-a pra dançar e recebeu um dos sorrisos singelos da mulher.
-É muito gentil da sua parte. – Murmurou enquanto faziam pose para a dança.
Como era bom andar com música. Não dançava desde o próprio casamento, única festividade em que o marido convidou-a para isso, e só porque a valsa era tradição.
Os dois não tiveram bailes pra dançar enquanto ele lhe fazia a corte. Seus namoros eram no quintal de casa, ou na sala, sempre com os olhos dos criados e parentes pregados em cima.
A música acabou e Erida deixou o cunhado. Não era bom que ele dançasse mais com ela. Devia aproveitar para tomar conhecimento das raparigas interessantes. Assim, ele lhe beijou respeitosamente a mão enluvada e ela retornou para junto das irmãs, que lhe elogiaram a linda dança.
A festa durou até o dia começar a nascer e depois que os convidados partiram, Erida ainda comandou as criadas na organização da sala, recolhendo garrafas vazias, copos deixados para trás.
Foi se deitar feliz com o sucesso do evento. Certamente, ganharia elogios pelo ano inteiro. 

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