terça-feira, 26 de outubro de 2010

Olá! O conto de hoje surgiu a partir do livro "O perfume", ou pelo menos, as informações geográficas sairam dele... Faz um tempo que o escrevi, mas acabei esperando pra postá-lo porque não ficou lá dos meus favoritos...



SONATA NOTURNA
Adéle morava na Rue aux Fers, próxima do Cimetiére des Innocents. Não era um lugar adorável para se viver, uma vez que o cemitério recebia, diariamente, levas de cadáveres vindos do hospital Hôtel-Dieu, que exalavam seu cheiro de putrefação por dias.
A vizinhança toda já se habituara, afinal, não havia o que fazer, uma vez que os mortos tinham que ser levados para algum lugar.
Adéle já nem notava mais o cheiro ruim, dedicando-se aos trabalhos da casa durante o dia. Era a filha mais nova de um sapateiro e, como sua mãe morrera de peste quando ainda era pequena, ela era a encarregada da organização da casa e da alimentação do pai e dos três irmãos mais velhos.
Não reclamava de sua vida, pois sabia haver mulheres em situação pior. Fazia o serviço de casa e às vezes ajudava na sapataria, recebendo o carinho do pai como pagamento.
Estava, certa noite, penteando os longos cabelos lisos, com a janela aberta para entrar luz de luar e estrelas, quando um som triste, distante, penetrou o recinto.
Curiosa, Adéle seguiu até a janela e postou-se ali em silêncio, tentando captar a direção do som. Era tão lindo ouvir aquela música distante... Era triste de tal forma, que o coração da moça começou a impeli-la a ir atrás de quem quer que fosse o executor da melodia, apenas para tomá-lo nos braços, num abraço cheio de afeto, para arrancar-lhe a melancolia da alma.
Abriu a porta do quarto e constatou que os irmãos e o pai já dormiam a sono solto. Colocou o vestido de volta no corpo e a toca nos cabelos e saiu de casa com lentidão, para não acordar ninguém. Estando na rua, pôs-se a caminhar com vigor na direção da música. Vinha de algum lugar entre a Rue aux Fers e a Rue de la Ferronnerie, para onde ela seguiu.
Parou em frente ao Cimetiére de Innocents, onde a música se tornou mais forte, bom como o odor nojento dos mortos. Com um suspiro de náusea e curiosidade, Adéle transpôs o portão do cemitério, e seguiu o som até a frente de um túmulo cinzento, que desprendia um brilho fantasmagórico com a luz do luar.
Por um instante, acreditou ter perdido a sanidade. Estaria o anjo do túmulo fazendo aquela canção apenas para jogar com ela? E então, ela viu que ao lado da morada do morto, estava um homem em trajes negros. Tinha cabelos longos e escuros, que caiam ao lado de seu rosto enquanto ele tocava um violino., com os olhos fechados.
Não pareceu notar a presença de Adéle, que ficou ali parada, quieta ouvindo.
Quando terminou de executar sua canção, o homem abriu os olhos e mirou a moça. Passou-se algum tempo até que ele tivesse qualquer ação.
-Você é um fantasma?
-Não... - Ela sorriu.
-Fico feliz. Isso prova que não perdi completamente minha sanidade, minha bela. - Ele disse, sentando na borda do túmulo e pegando do chão a caixa para guardar o violino.
-Por que o senhor veio tocar aqui? Não parece ser qualquer pessoa para se enfiar nesse lugar...
-Os mortos também merecem algo que alivie suas almas. E eu, algumas vezes, gosto de perturbar os meus sentidos com essas excursões noturnas. Nos salões eu posso tocar as músicas que alegrem e façam dançar. Aqui posso deixar me vazar a alma e qualquer aflição que me tenha tomado.
Adéle refletiu sobre isso. Aquele homem parecia muito triste, como se alguém tivesse roubado a alegria de sua existência.
-Pois eu gostaria de ouvir uma música tão linda mais vezes. - Ela suspirou. - Porque também não posso deixar que a tristeza me consuma nem que me leve a energia do corpo, já que tenho obrigações em minha casa.
O homem nada disse. Fechou a caixa de seu instrumento e levantou-se, indo até ela e estendendo-lhe uma rosa. Não era das mais velhas. Talvez ele mesmo tivesse trazido para depositar em algum jazido.
Ele fez um aceno com a cabeça e partiu, indo na direção da escuridão e deixando Adéle sozinha com a flor na mão.
Ainda perturbada com o episódio, a moça saiu do cemitério e voltou para casa. Não falou nada sobre seu encontro com o misterioso violinista a ninguém, mas não deixou de pensar nele o dia inteiro.
Na noite, quando se encontrou novamente sozinha no quaro, começou a ouvir uma música distante... Que foi se aproximando cada vez mais.
A melodia passou por sua janela, junto com uma nova rosa, que fez com que ela sorrisse, mirando a face límpida da noite, e descesse as escadas da casa outra vez, para consolar a tristeza de duas almas nas ruas de Paris.

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