quarta-feira, 20 de outubro de 2010

CRISTABEL



Debruçada sobre a janela da torre onde morava, Cristabel sonhava, lembrando da liberdade que um dia tivera.
Já pudera correr pelos campos, aspirar o perfume das flores, ouvir correr as águas do riacho. Agora, a torre era sua prisão e dali não havia como escapar.
Seu marido, Oliver, era um homem muito católico. Desejava ardentemente tornar-se padre, mas sendo filho único, herdeiro dos bens da família, foi obrigado a seguir o caminho já determinado pelos pais na sua infância: casar com Cristabel.
Quando o dia chegou, Oliver não pôde crer, ao ver a moça, em tamanha beleza. Ela tinha cabelos ruivos longos e sedosos, olhos da cor do mel silvestre e sua voz era tão leve quanto a seda.
Tal obra de esmero e beleza só podia ser uma artimanha do diabo, para tentar a sua forte fé no Senhor. Assim, logo depois da cerimônia ser feita, Cristabel foi trancada na torre, longe de todos os olhares, ouvidos e bocas, para que permanecesse sem tentar ninguém.
Nunca mais vira os campos. Nunca mais correra ou nadara, colhera lírios ou brincara com as borboletas. Como um rouxinol aprisionado na sua gaiola de ouro, ela estava condenada a morrer entre as pedras cinzentas e úmidas.
Enquanto ela passava seus tristes dias, aprisionada, tornara-se lenda nas terras do marido. Alguns do povo diziam que ela era bruxa e por isso Oliver a havia trancado. Outros acreditavam que era dona de uma beleza inacreditável e que o marido tinha tanto ciúme que a escondera na torre.
Por acreditar ser o único imune aos encantos de Cristabel, Oliver lhe levava comida e água ele próprio, sempre na calada da noite, quando a moça estava dormindo.
Debruçada na janela, ela sonhava com o dia que sairia da torre, que sentira o vento tocar-lhe o corpo. E um passarinho sentou em sua janela, cantarolou pra ela, convidando-a a acompanhá-lo.
Sorrindo para o amigo, o único que podia alcançá-la ali, ela subiu no parapeito, encolhendo-se um pouco para caber e viu a ave ir-se pelo céu. Com coração a bater forte, Cristabel abriu os braços e o seguiu, sentindo o vento da liberdade depois de muito tempo. Como uma fênix que estivera adormecida, em cinzas, e agora renascia, um borrão laranja no céu. 

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