sexta-feira, 21 de maio de 2010

Vou amar você até morrer

Vou amar você até morrer

O barulho dos instrumentos médicos, que enchiam o quarto, já não o perturbava mais. Nos últimos meses, eles se tornaram, de certa forma, seus amigos e inimigos. Em uma hora, davam-lhe boas novas, mostravam melhorias. Em outras, apontavam falhas, defeitos.
Aprendera a ser resignado e suportar o fato de que estava impotente naquela situação. Só podia esperar laudos dos médicos, resultados de exames, sentado na poltrona confortável do canto da sala.
Brenda dormia quase o tempo todo, sob efeito de soníferos e sedativos que as enfermeiras lhe aplicavam várias vezes ao dia. Ela não gostava disso. Reclamava sempre. Mas tinha que ser feito.
Vinicius não gostava de ver as agulhas sendo tiradas e colocadas em toda a extensão possível dos braços dela. No começo, lhe dava vontade de arrancá-las. Parecia que doía nele também. Acostumou-se. Mas ainda odiava aqueles momentos.
A pele dela acumulara, com esse gradativo processo, uma grande sensibilidade.
Desde que ela havia consultado o médico, depois de meses de forte enxaqueca e dois desmaios consecutivos, o teratoma fora descoberto. Aquele monstrinho crescia silenciosamente no cérebro dela, até aquele momento. O doutor dissera que era um tumor perigoso. Ele tinha unhas, cabelos, dentes... Era quase como se um alie tivesse se instalado no cérebro de Brenda para sugar sua massa cefálica, pelo menos era o que Vinicius imaginava.
Na noite depois da consulta, Brenda chorara como uma criança. Ele também tinha vontade de chorar, mas contornou a situação, como se espera de um marido na sua situação. Fez planos de cura, de tratamento intensivo e morte do monstrinho. Planos que não deram certo. Tudo dera errado e depois de todos os tipos de tratamento, ela fora internada, em estado grave.
Depois de uma longa luta contra a doença, sua Brenda estava partindo daquele mundo. Ela queria assim, como lhe dissera há muito tempo. E naquela manhã, reforçara o pedido, num sussurro quase inaudível “Me deixe ir... Eu só quero dormir...”.
Sabia que o doutor não poderia fazer nada. Eutanásia era ilegal.
Naquela noite, Vinicius sabotou o equipamento do hospital, de forma que Brenda recebeu uma quantidade de sedativo altíssima. Isso a mataria, sem dor.
Ele ficou sentado, no sofá e esperou alguns minutos até chamar a enfermeira.
Deixou então, todas as lágrimas contidas daqueles meses todos se fosse, escorrendo, indo embora, como Brenda...

***
Aproveito para deixar uma dica muito boa: o Skoob. É uma rede social de leitores em que você marca os livros que já leu, dá sua opinião e ainda encontra sugestões de leitura... Muito útil!
Beijos, até a próxima!

4 comentários:

mazive disse...

Oi Niki,

1. Nos últimos dias li três textos seus (O homem e sua morta, No abismo e Encanto de uma noite branca). Porque estou muito longe de ser um crítico literário, devo dizer apenas que gostei deles. Continue trabalhando.

2. Sobre sua leitura de momento.
Vi o perfume em filme. Muito inyeressante.

Abraços
Adérito
Maputo – Moçambique

Meg disse...

Você continua escrevendo maravilhosamente bem!
E sempre abordando temas polêmicos, hein? É realmente triste essa situação (e muito difícil de lidar), quando vemos nossos entes queridos sofrendo.
Você expressou bem esse sentimento no texto. Tá de parabéns.
See ya!

NILS ZEN disse...

Sua caminhada literária está perfeita! Sempre admirei seu estilo de criar histórias... Parabéns, Niki!

Johannes Dudeck disse...

Poxa,que triste. Porém,um texto necessário,que nos faz refletir sobre a realidade.Decisões,desse tipo,sempre são muito difíceis. Belo,texto!

=)